Pergunto-me: Por que não eu?

Eu escuto muitas pessoas que estão com algum problema, fazendo a seguinte pergunta, “por que isso aconteceu comigo?”. Será que essas pessoas já pararam para pensar nesta pergunta? Ou será apenas desespero, por não saber lidar com a situação?

Esta pergunta é na verdade muito egoísta, porque quem a faz, só está pensando em si mesmo, no seu próprio umbigo. O outro pode ter aquele mesmo problema, mas quem faz essa pergunta parece não poder passar por nenhuma dificuldade na vida. Essa pessoa não é capaz de olhar para os lados e pensar que todos somos iguais, não há uma pessoa mais ou menos especial. Todo ser humano está sujeito a sofrimento.

Eu posso falar com toda sinceridade: nunca me fiz essa pergunta. Vejo hoje que o meu problema é uma característica minha, sem ela, eu não seria Carolina Câmara De Oliveira. Isso não quer dizer que eu não sofra com essa característica, sofro, mas não é o fim do mundo e sou feliz.


Então me pergunto por que não eu?


Até mais,
bjo,
Carol

Primeira proibição na Faculdade de Psicologia (continuação)

Admitindo que eu assustasse mesmo a criança... e daí? Este teste era para ser aplicado em crianças normais, escolhidas por nós e seu objetivo era verificar nossa atuação durante a aplicação. Assim, as falhas que existissem deveriam ser trabalhadas. Ao me negarem o direito de aplicar o teste, negavam-me também o direito à aprendizagem. Além disso, a justificativa era a de que eu assustaria a criança e não os pais. Mas também fui proibida de fazer a entrevista com eles.
Pela minha resistência em aceitar tudo isso, o diretor da clínica psicológica lançou-me um desafio dizendo: me prove cientificamente que você não vai provocar alteração no teste da criança. Mais um equívoco muito comum em casos semelhantes ao meu: eu ter de provar que posso, que sei, que penso.
Mas ai, naquele momento, senti-me rendida. No dia da aplicação do teste, fiquei, mesmo discordando, na sala de espelho, sem som ou qualquer outra possibilidade de eu acompanhar o que estava acontecendo na sala de terapia. Foram três momentos de realização desse teste. Três dias em que fiquei atrás do espelho, sem poder participar de modo algum.

Até mais,
bjo,
Carol

Primeira proibição na Faculdade de Psicologia

No terceiro semestre, ainda, mais surpresas: proibiram-me de realizar um trabalho prático na disciplina Aplicação de Testes Infantis.
Sobre os motivos da proibição, se os professores que conduziram o caso tivessem chegado com explicações que ajudassem em minha formação, eu até poderia entender, mas da forma como foi, não deu.
O trabalho era para ser feito em duplas. A professora, no final da aula, chamou a mim e à minha colega que seria a minha dupla e falou que eu ia ficar atrás de um espelho, na sala do espelho, para não assustar a criança. Na hora, eu fiquei atônita, não estava entendendo muito e perguntei: como assim, assustar? A professora então deu o exemplo dela: ela é gorda e algumas crianças perguntavam pra ela porque era tão gorda.
Comentei que muitas crianças também já perguntaram para mim porque sou assim e ao responder tudo ficava bem. Diante de minhas tentativas de argumentar sobre sua determinação e sem contra-argumentos de sua parte que me fizessem entender a posição tomada, a professora falou que achava que ia ser difícil de eu entender, apesar de ser uma das mais inteligentes da sala.
Marcou, então, uma reunião com a coordenadora do curso. Nesta, os professores (sim, havia outros professores a defender a posição da titular da disciplina) resolveram mudar o argumento: o teste Wisc precisava de coordenação motora e a parceira da dupla precisaria de outra pessoa para ajudar e três pessoas numa sala com a criança seria demais. Saí da reunião convicta de que eles estavam certos. Concordei que três pessoas seria
m demais para a criança. Lembrei-me inclusive de minha própria experiência com muitos profissionais ao meu redor. A sensação era horrível, nunca gostei de ser exposta, nunca deixei que me expusessem. Saí de lá e conversei com minha mãe, dizendo-lhe o motivo de eu não aplicar o teste na criança. Minha mãe contou para sua terapeuta, que a fez ver que havia um problema nesta história. Havia muita discriminação e muito preconceito embutidos sutilmente nesta argumentação. Partiram do pressuposto de que eu não poderia manusear o material do teste, mas não pensaram anteriormente de que formas eu poderia manuseá-lo. Sabe-se teoricamente que um dos propósitos de uma educação inclusiva é garantir que a instituição educacional possa assegurar os direitos de todos os alunos aprenderem o que é necessário para sua formação. Não era isso que esta faculdade estava fazendo. Estava partindo de um pressuposto preconceituoso.
Conversando novamente com minha colega de dupla, vimos que os argumentos não tinham fundamento pedagógico e insistimos mais uma vez. Meus pais marcaram uma reunião com a diretora que não custou para atendê-
los e quando o fez foi apenas para dizer que sou uma menina mimada e que deveria entender os limites da vida. Mas continuamos a insistir e a verdadeira explicação veio mais tarde: a diretora reafirmou que minha presença poderia assustar a criança e isso traria alterações.

Até mais,
bjo,
Carol

Bebê imaginário

É no inicio da gravidez que começa uma relação imaginária da mãe com o feto. A mãe faz uma representação de um corpo imaginário, já desenvolvido, e não de embrião. A gestação é composta de relações, feita de emoções, traduzidos pelos neuromediadores maternais que vão passar a barreira placentária e tocar o feto e não são neutras: pode-se falar de nutriente afetivo (FABRE-GRENET, 1998).
O processo gestacional, pelas varias transformações que causa no corpo e no psiquismo da mãe favorecida pelas vivências corporais com o feto, pode algumas fantasias, regressões, sonhos que devem constituir-se, por si mesmos, numa vivência privilegiada facilitada pela própria gravidez (WOILER, 2006).
O bebê idealizado é construído durante a gestação, sendo o bebê dos sonhos diurnos e das expectativas, o produto do desejo de maternidade. A mãe tem que personificar o feto para posso, na hora do parto, não se encontre com alguém completamente estranho a ela (Brazelton e Cramer, 1992). A personificação do bebê vai acontecendo à medida que os pais escolhem o nome do bebê e suas roupas, e modificam a casa. Dar características aos movimentos fetais, personificar esses movimentos dizendo o que e como esse filho será, por exemplo, são formas de atribuir uma personalidade ao feto.
Para Soifer (1986) o pós-parto, ou puerperal é uma etapa de “delimitação entre o perdido – a gravidez – e o adquirido – o filho. Ocorre a delimitação entre devaneio, fantasia inconsciente e realidade. esta múltipla delimitação é feita por um processo de elaboração lenta e gradual, na qual as fantasias não são concretizadas. Segundo a autora o parto é o momento de separação entre dois seres que até então viviam juntos, um dentro do outro. Então é nesta hora que há a perda de um estado e passagem a outro.
Debray (1988) diz que tem uma distância entre o “bebê real” e o “bebê fantasioso”, gerando decepção para a mãe. O bebê fantasioso surge pelo fato da mãe ter pouco contato com o bebê real. Nos primeiros momentos após o parto, o bebê com as suas características, que auxiliar a mãe a desenvolver o sentimento de competência e confiança em si e assim cumprir seu papel. Então a distância entre bebê fantasmático sonhado durante a gravidez e o bebê real será menor, e as decepções naturais poderão ser aceitas sem muito sofrimento. Mas, mesmo quando o bebê real realiza as fantasias da mãe, há a possibilidade de nascer nela um movimento depressivo após o parto.
A mãe sempre imagina que seu filho vai ser perfeito. Ninguém deseja ter um filho Portador De Necessidades Especiais, porém isso acontece e aconteceu com os meus pais. Eles sofreram muito, mas felizmente meus pais me aceitaram e isso foi fundamental para o meu desenvolvimento e para a família. E hoje somos uma família feliz

Até mais,
bjo,
Carol

Eu na universidade

Meu primeiro ano na universidade foi muito bom. A faculdade mostrava-se preparada para me receber. Rapidamente me entrosei com um grupo que me ajudou muito. As salas eram todas localizadas próximas a um elevador ou no piso inferior, o que me facilitou a locomoção, feita a pé.
Mas, no decorrer dos anos, percebi que as necessidades atendidas eram apenas desta ordem. Outras questões aconteceram e foram por mim empurradas com a barriga. Digo isso, porque, pela direção da faculdade, eu deveria desistir da formação, apesar de meu rendimento de aprendizagem ser acima da média.
Vamos a alguns fatos. No terceiro período do curso, deparei-me com uma professora, na disciplina de Desenvolvimento Infantil, que, no dia da prova, virou-se para mim perguntando: Você quer que eu leia ou você sabe ler?
Não é tanto a primeira parte da pergunta que me afeta. Seria uma delicadeza de sua parte saber se era necessário me ajudar com a leitura, no que diz respeito ao manuseio do material. Mas a segunda parte – ou você sabe ler? – denota uma descrença da professora em minhas capacidades intelectuais. Uma discriminação sutil travestida de cuidado com o outro. Será que ela não imaginava que eu soubesse ler? Como eu teria entrado na faculdade onde ela leciona? É certo que qualquer pessoa pode prestar vestibular, basta comprovar o término do ensino médio. Mas entrar na faculdade não é para todos. A barreira é grande. E depois eu já estava no terceiro semestre!! Como teria chegado até aí, se eu não soubesse ler? Entendo hoje que esta professora começava ali a cruzada da faculdade contra minha formação, que eu ainda teimei um tempo em admitir.

Até mais,
bjo,
Carol

Escolha da minha profissão

Eu ontem a noite estava na varanda da minha casa, conversando com a minha mãe. Ela estava falando de como a Mariana (minha Irmã) está dedicada com a sua nova etapa da vida, e que agora está pensando em fazer Direito. Na hora eu falei : eita, que profissão chata.
Mas era profissão que eu queria quando estava no colegial e no cursinho, então prestei Direito para quase todas as faculdades, menos para uma, porque minha mãe me convenceu a tentar Psicologia, pois ela não gosta de advogados, que bom! Passei em Psicologia, fiquei feliz e decidi fazer a faculdade.
Hoje eu penso que besteira que eu ia fazer, Direito não tem nada a ver comigo. Eu amo a minha profissão e amo mais ainda a minha mãe e é graças a ela que eu estou no caminho certo. Valeu mãe, te amo.

Até mais,

bjo,
Carol

Resposta ao pediatra e a outras pessoas também

Talvez a besteira que minha mãe tenha feito foi acreditar na capacidade de um vegetal.

Hoje estou aqui, me movimentando em todos os sentidos. Eu ando, eu como, eu saio, eu escrevo (estou agora escrevendo!!), estudo, tenho uma profissão, eu amo, eu namoro, enfim, tenho uma vida plena e comum.

A propósito: acompanho a novela Viver a Vida que, por sinal, adoro. Manoel Carlos vem fazendo um trabalho legal em mostrar as reais dificuldades que um deficiente físico tem. Mas eu fiquei impressionada quando, por curiosidade,  fui ver se o blog da Luciana existia de fato e constatei que ele existe e é muito acessado pelas pessoas em geral, que deixam comentários em cada mensagem nova.

Embora a intenção do autor da novela seja a de fazer com que a população saiba mais sobre um problema real, os comentários são dirigidos aos personagens da ficção.  É louco pensar que damos vida a algo que não existe enquanto o que existe muitas vezes fica sem resposta.

Minha primeira intenção com este blog foi dar visibilidade à minha história real. O título do blog seguiu o título do meu livro que já está escrito há anos sem que tenha conseguido uma editora que o publicasse.  Portanto, Um sonho a mais não faz mal não é uma tentativa de cópia de Sonhos da Luciana, como escutei de algumas pessoas.

Aqui não tem nada de ficção. Só vida real. Alguém se interessa?

Até mais.

bj,

Carol

Meu futuro: segundo o Pediatra

Então, somente aos meus sete meses de idade, fui diagnosticada como portadora de paralisia cerebral, ou, para o médico que me examinou: Que furo que eu dei. Mãe, sua filha vai ser um vegetal. Não faça nenhuma besteira ao sair daqui.
" As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem". Chico Buarque
 
Carolina - Um sonho a mais não faz mal
Design por João Elias - Topo ↑